segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

É possível fingir ser louco?



Fazer de conta que está mal da cabeça pode render algumas vantagens. Pode render aposentadoria por invalidez ou auxílio-doença. Pode dar acesso a remédios controlados que ajudam a ser mais produtivo nos estudos e no trabalho. Ou pode evitar o julgamento por um crime. O princípio no caso penal é: quando uma doença mental deixa a pessoa incapaz de controlar sua ação, ela se torna aquilo que o juridiquês chama de "inimputável". 

"Para a lei, não importa a doença que a pessoa tenha, mas o impacto dela no dia a dia", diz Daniel Barros, professor de psiquiatria forense do Hospital das Clínicas da USP. Mesmo que o sujeito tenha esquizofrenia grave, se ele roubar dinheiro e comprar uma blusa, não terá feito isso por causa do transtorno, mas porque queira comprar a blusa. "Ele só deixaria de responder pelo crime se a doença torná-lo incapaz de entender o que está fazendo ou de se controlar", diz Barros. assim deixa de ter culpa no crime.



Para desmascarar mentirosos, psiquiatras têm a ferramenta principal: a boa e velha conversa. Afinal diferentemente de um câncer ou de um osso quebrado, um transtorno mental é diagnosticado a partir do comportamento e dos relatos do paciente, e não por um exame físico. não existe raio-X de esquizofrenia. Mas, na prática, para enganar o psiquiatra é preciso mais do que bons talentos dramáticos. é necessária maestria como diretor, roteirista e ator. Eles partem para perguntas abertas. assim, o paciente precisa relatar os sintomas com suas próprias palavras e experiências - de nada adianta ler os sintomas no Google. 


Na momento de detalhar a entrevista o psiquiatra pode misturar perguntas relacionadas a transtornos opostos ou sintomas completamente improváveis (por exemplo, se vê palavras escritas surgirem quando pessoas falam). com uma entrevista longa, é apenas uma questão de tempo para que ele se contradiga ou mostre um comportamento incoerente com as descrições. "Você pode estudar as cores e técnicas de Van Gogh", diz Barros. " Mas quando você faz um quadro, não sai um Van Gogh."

De nada adianta forjar um quadro de esquizofrenia a partir do que viu em filmes. O transtorno é muito diferente do que vemos em filmes


ESQUIZOFRENIA

Por que tentar fingir: Inimputabilidade criminal.

Sintomas mais comuns: Alucinações, delírios, apatia, achatamento de emoções, isolamento social.

Obstáculos para quem finge: Achar que quanto mais bizarro, mais convincente será, e acabar inventando alucinações e delírios muito diferentes dos legítimos. Ignorar sintomas menos cinematográficos, como a apatia e o achatamento de emoções.


DEPRESSÃO

Por que tetam fingir: Aposentadoria por invalidez, auxílio-doença.

Sintomas mais comuns: Perda de prazer nas atividades, sensação de inutilidade, insônia, ideias de morte ou suicídio.

Obstáculos para quem finge: Dizer que está triste, mas não aparentar a tristeza, ou exagerar num grau que não teria permitido sequer ir até a perícia. Dizer que chora, mas não saber responder direito em quais situações.


ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Por que tentam fingir: Aposentadoria por invalidez, auxílio-doença, indenizações.

Sintomas mais comuns: Imagens de um trauma voltam à mente, o que dispara pânico.

Obstáculos para quem finge: Inventar um trauma trivial demais para causar o transtorno. Não conseguir simular a reação física (o suor, os tremores e a aceleração cardíaca) que vêm com a lembrança.


DÉFICIT DE ATENÇÃO

Por que tentam fingir: Conseguir medicamentos que aumentam a concentração.

Sintomas mais comuns: Comportamento desatento, desconcentrado, pouco persistente, desorganizado, esquecido.

Obstáculos para quem finge: O psiquiatra pode não receitar estimulantes na primeira consulta e tentar outros tratamentos antes.


Para mais informações:

Superinteressante
O Que É Psiquiatria Forense
Daniel Martins de Barros, Editora Brasiliense, 2008.
Fontes: Jair Borges Barbosa Neto e Dartiu Xavier da Silveira, psiquiatras da Unifesp; Michael Sharpe, psiquiatra da Universidade de Edimburgo; Daniel Barros, psiquiatra forense do HC-FMUSP.



www.elfandarilha.blogspot.com.br
                                    Imagem retirada da internet desconheço autor



4 comentários:

  1. Acredito ser possível, mas deve ser muito difícil se fingir o tempo todo ou na presença de um profissional com experiência.

    Abraços.

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    1. Felizmente há profissionais para por limites nisso, imagine se todas as tentativas resultassem em atestados!

      Abraços, obrigada

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  2. Eu acho muito difícil para quem nunca viu na vida real um doente com essas características de as fingir. Precisa muito mais, como diz o artigo, de ler sintomas no Google ou ver filmes. Precisa de se tornar outra pessoa e isso não é fácil.

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    Estas Coisas Acontecem
    www.acontecemcoisas.com

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    1. Com certeza e felizmente os profissionais que tratam tais casos tem os meios para descobrir eventuais pacientes que estejam mentindo.

      Obrigada pelo comentário

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